Lugares perfeitos

Na pintura de Fátima Pinto “casas modernistas, lineares e abertas, que já protagonizaram, há anos, papéis urbanos (de que permanecem claros vestígios nas brincadeiras das crianças), recolhem-se agora a outra paisagem, partilhando o espaço com as árvores, as rochas, a água; os seus habitantes distendem-se e o tempo acompanha essa respiração, quedando-se, imóvel, suspenso. Meninas, meninos, cães, pássaros, mulheres e homens passeiam-se na bonomia dessas horas mansas, em cuja cintilância quase se ouve o rumor de crescimento das árvores. Estas, como as manchas de água, como as casas, erguem-se em grandes linhas de organização do espaço, definindo as escalas, esclarecendo os planos da pintura, modulando a luz.
A sua paleta turmalina, de generosa gama de verdes, azuis, cinzas, ocres e vermelhos, pontuada a ouro, serve bem a gradação lumínica que modula a paisagem. Céus flamengos ou venezianos, enevoados ou rosados, cuja luz coada permite observar melhor o mundo nos seus múltiplos pormenores, ou céus mediterrânicos, de claros azuis, coroam essas paisagens tranquilas.”

In FERREIRA, Emília - “Lugares Perfeitos”, texto do catálogo da exposição Fátima Pinto - Margens, Casa da Cerca, Almada, 2009.

 

Perfect places

Fátima Pinto’s painting “modernist houses, linear and open modernist houses that once played urban parts (clear traces of which still remain in children’s play) now withdraw to another landscape and share their space with trees, rocks and water. Its inhabitants stretch: time follows the breathing and then lays still, suspended. Girls, boys, dogs, birds, women and men walk in the kindness of those lazy hours: in their sparkle you can almost hear the rumour of the growing trees. Like water stains, like houses, the latter stand in large lines of organisation of space, defining scales, clarifying the planes of the painting, modulating light.
Her tourmaline palette, with a generous range of greens, blues, ash greys, ochres and reds, punctuated by gold, fits well the luminic gradation that modulates landscape. Cloudy or pink Flemish or Venetian skies, whose filtered light allows us to better observe the world in its multiple details, or clear-blue Mediterranean skies crown those quiet landscapes.”

In FERREIRA, Emília - “Lugares Perfeitos”, exhibition catalogue Fátima Pinto - Riverbanks, Casa da Cerca, Almada, 2009.